23.5.12

Sobre Sontos e Conhos


P.S. Tem algumas coisas que não precisam da fagulha inical da criação. Elas estão sempre queimando dentro de qualquer criativo, seja das palavras, seja das artes visuais, seja dos criativos da mente e por ai vai. Falo por mim, escritor, que achou aqui a total liberdade para ser quem eu quiser, como eu quiser. Posso usar drogas sem efeitos colaterais, posso fazer sexo sem camisinha sem medo da AIDS, posso falar verdade como se fosse ficção e vice e versa. Tudo isso apazigua um pouco a complexidade de existir. Funciona como um HD externo de algumas coisas que você precisa tirar da cabeça para o sistema funcionar melhor.

A loucura toda, desse tal fogo que queima, é que não dá pra apagar toda hora, entendem? Não funciona assim, não posso escrever qualquer coisa que me venha a cabeça tendo em vista que eu preciso, pelo menos, manter uma qualidade textual que EU ache aceitável. E o meu padrão para comigo mesmo é alto.

Então fico eu rodando na cama, na rua, no feijão do almoço, no copo do bar, tentando encaixar as palavras, tentando formar um começo e um fim que siga uma linha de escrita, que tenha a pegada beatnik que me formou como escritor, mas sem ser pedante, que tenha aquele lado romântico que sempre tive, mas sem ser meloso.

É uma química complicada, mas prazerosa.
Assim como as mulheres.

Da saída do metrô vejo o sol e os ambulantes. O dia está claro com aquele sol de outono / inverno, vento frio e sol quente. Tudo perfeito para uma caminhada descontráida até um boteco bacanudo da Vila Madalena.

Tenho andado pouco de carro ultimamente. Prefiro o tranporte público ou então a bicicleta. Deixo a ecologia de lado nessa minha escolha. Não sou um cidadão padrão e acho que o mundo não vai acabar mesmo que TODAS as pessoas do mundo peidem ao mesmo tempo. Vejo nessa ecologia toda um sentimento religioso. Melhor, um ressentimento religioso, uma culpa religiosa que não coaduna com a minha linha de pensamento. Ando de metrô e de bicicleta pelas referências. O carro te deixa naquele mundo fechado, chato, raivoso. As caminhadas e o tempo ocioso sentado em um ônibus pura e simplesmente olhando a paisagem já faz a vida melhor, mais calma, além de trabalhar a mente para melhores contos e sonhos.

Aos contos primeiro.

Eu conto uma história por pessoa que vejo analisando cada pequeno detalhe da roupa, do cabelo, da condição financeira e das expressões corporais. Fico imaginando o que no que aquela pessoa pensa, faço um pequeno filme de onde o ser vivo está indo, para onde vai, quais são os sonhos, eles tem sonhos? Penso na infância e faço uma biografia baseada em meras e simples conclusões tiradas de uma olhadela rápida, seja no metrô, seja no ônibus, seja naquela mulher gostosa que passa na rua e todo mundo tece um comentário malicioso. Eu não teço comentários maliciosos. Eu monto filmes maliciosos na minha cabeça, imaginando como ela fala, como ela faz, como ela deixa de fazer. Penso nos problemas, nas soluções e nos prazeres de possuir toda aquela carne por 01 hora, 01 dia, 01 ano ou 01 vida. Uma olhadela em uma pessoa comum pode me entreter por um quilômetro de caminhada mansa.

Toda vida vale um roteiro de cinema. Sem aquela babaquice de aproveite cada momento, ou de que a vida é feita de momentos e você não pode perder nenhum. Perdão a vocês assistenciados por livros de auto ajuda, mas a vida é feita de rotina, de uma boa e velha rotina dos seus gostos, desgostos, prazeres e desprazeres. É um ciclo constante de novidades, mesmices, dores e prazeres. E esse ciclo, de qualquer pessoa, vale uma hora e meia em qualquer cinema se você souber contar a história de um ângulo favorável. Seja da vida fácil da piriguete que vai pra balada todo dia ou da velha senhora que ainda lava a roupa do marido, mesmo depois que este já morreu.

Um brinde aos contos de uma vida de um estranho qualquer.

E agora, aos sonhos.

Eu lembro, claramente, do meu primeiro sonho. Na verdade foi um pesadelo que repetiu-se ao longo de muito anos. Eu lembro de ser pequeno, muito pequeno, dormia na cama de mãos dadas com a minha nonna, acho que foi logo após a morte do meu Nonno, quando ainda morávamos na Guarará. Tenho ótimas recordações daquele apartamento, mas isso é outro assunto. Dormia algumas noites com a minha Nonna. Nunca por medo, mas por esse amor italiano de famiglia, sabe? Como eu sempre me mexi demais na cama, minha nonna colocava uma almofada entre nós e nos dávamos as mãos por baixo dessa almofada. Foi nessa época que eu tive meu primeiro pesadelo. Eu estava sozinho, no meio do mar e um redemoinho enorme formava-se. Eu ficava apavorado e me segurava em uma daquelas bóias típicas dos desenhos do  pica pau, quando ele ficava perdido no mar e se salvava numa daquelas bóias altas com uma luz no topo. Eu nunca acordava chorando. Apenas acordava e ficava encarando o teto, vendo minha nonna dormir e sentia medo de dormir de novo, por que sabia que o sonho iria repetir-se. E esse sonho repetiu-se por muitas e muitas noites de muitos e muitos anos fazendo com que eu me acostumasse com o mundo bizarro dos sonhos. Fui acostumado a ter pesadelos, familiares transformando-se em monstros, sonhos desconexos e surreais. Jamais sonhei com a normalidade.

Conforme fui crescendo comecei a ter sonhos eróticos. Sonhos eróticos surreais, com mulheres que eu conhecia, professoras da escola, amiguinhas que tinham vaginas do tamanho de um braço e eram lisas e estranhas por dentro. Eram lisas e secas e trasnformavam-se em bolos de carne, depois coroas, depois pessoas sorridentes mais uma vez.

Continuei nos sonhos estranhos até conhecer Castañeda, agora já na faculdade e fiquei em êxtase quando Don Juan explicou a ele sobre os sonhos lúcidos e como você podia ser duas pessoas ao mesmo tempo e fazer coisas mundanas pelo seu mundo dos sonhos. Trabalhei isso por longos anos até começar a dominar a arte dos sonhos lúcidos utilizando todas as técnicas que li em livros e internet quando a mesma ficou popular entre as pessoas comuns.

Dentre esses sonhos tenho passeios por universos diferenciados, mas que sempre se baseiam no que tenho como referência do mundo. Foi quando eu entendi que toda essa piração surreal e toda essa desconexão dos meus sonhos tinham como base toda a realidade e conexão do mundo. Aqui entra o por quê andar de metrô, a pé, ônibus, muito mais do que eu andava antes.

Referências. Seja de pessoas, lugares, situações ou ambientes. São essas referências de um mundo comum, de um “mundo mundano” que me leva para esse outro universo quando eu sonho, envolvendo Tsunamis de carros da década de 70, armaduras, voos, metamorfoses e aviões feitos de algodão cru.

Dentre esses passeios, noite passada deitei-me e na minha total ausência de sono fechei os olhos para tentar dormir.

Dormi e comecei a sonhar. Passei por um universo mais mágico, que lembrava-me meu sítio com todas as árvores e duendes que eu via quando era criança. Eu tinha asas, tinha o formato de um pássaro meio tecnológio com asas retráteis de metal e demorei-me, no sonho, alguns dias para entender o por que dessas asas. Quando descobri, voei. Voei para uma pequena casa que eu conheço e ali jazia uma mulher deitada de lado, respirando levemente, sonhando.

Abracei-a carinhosamente.

-       Brian! O que você está fazendo aqui!?

-       Calma, Mulher, é só um sonho. Senti saudades e vim te ver. Senti falta do seu corpo e do seu abraço e vim te sentir.

-       Hmmmm – ela sussurrou enquanto encaixava o quadril em mim e deixava as costas descansando na minha barriga.

Já não tinha mais o formato de um pássaro. Eu começava a desaparecer, a sumir. Buscava as palmas da minha mão para continuar sonhando, para continuar ali, abraçado. O corpo começava a sumir, cada vez mais eu sentia menos o toque, meus dedos translúcidos passavam pela carne dela e eu sentia suas entranhas.

Dentro de toda essa sensação de realidade eu disse segundos antes de sumir:

-       Preciso ir embora, mulher, me liga amanhã de manhã, me liga e fala que sonhou comigo.

Desapareci e acordei com o telefone tocando e um cheiro doce no ar.

-       Oi, ela disse.


-       Oi - eu disse – sonhou comigo?

-       Não. Só senti saudades.





6.5.12

O Pós Scriptum do Pré Scriptum.


Se existe um P.S.  – Pós Scriptum – por que não um P.S. – Pré Scriptum - ?

P.S. Na imensidão solitária que é o ato de escrever – ou de criar -  sempre me interessei pela fagulha inicial. Assim como os religiosos, ou os cientistas que se interessam pela Fagulha inicial do mundo tal qual conhecemos, eu me interesso pela Fagulha inicial do processo criativo. Num autoestudo eu começo a definir a minha fagulha – essa palavra se torna estranha quando repetida algumas vezes, fagulha.... fagulha... fagulha.... fico em dúvida se ela, afinal, existe ou se está escrita corretamente, deixando essa dúvida fluir até alcançar um dicionário – a fagulha do que ainda vou escrever nasceu ontem, na caminhada após a festa, com a cabeça ainda voando, sabendo que eu preciso fazer alguma coisa, mas ainda sem definição. Ela é reforçada hoje, às 12:42, quando ligo para uma mulher e a acordo. Ela estava comigo ontem. Não vamos nos ver, talvez não mais esse ano – ai já está um teaser do conto, esse é o problema do Pré Scriptum – vou trabalhar o dia todo, ela diz, eu não forço, pego a bicicleta e ando sem rumo até o primeiro bar que encontro por Moema. Sento-me, abro a Istoé, leio, vejo a mulher mais bonita da minha vida na minha frente e essa Fagulha vira o incêndio que vem a seguir. E Agora, exatamente agora – o agora é engraçado. Ele existe para mim. Agora. Agora. Agora. Você, leitor, apenas cria o meu agora – eu criei o título do conto.

P.S. Um Senhor negro parou do lado do bar, sozinho, belo, velho. Ele faz um solo de Saxofone. Chorado. Tenho lágrimas nos olhos. Ele pede dinheiro. Dou tudo o que tenho no bolso e lhe pago um whisky às 15:13.

O Pós Scriptum do Pré Scriptum.

O restaurante Francês não estava cheio. Consegui a melhor mesa da varanda onde o vento batia leve, tirando a necessidade do ar condicionado. Mesmo tendo sido ontem a maior Lua dos próximos 18 anos, hoje ela ainda brilhava grande e forte. Ela brilhava grande e forte. A Lua e aquela bela mulher à minha frente. Não sei se ela tinha consciência do teor da conversa, do por que do jantar caro, da lua enorme, do vento fresco...

Eu a olhei por longos segundos. Nos encaramos sem piscar, sem sorrir, sem vergonha. Aquele olhar era de uma sinceridade que apenas com ela eu atingia. Ela esticou a mão e virou a cabeça de lado, sorrindo e apertando meus dedos por entre os dela, eu retribuo o sorriso e o aperto e todo o carinho, com todo o amor que ali eu tenho, aperto-lhe os dedos e dou um sorriso como se fossem os últimos de uma vida.

-       Carta de vinhos, Senhor? – Pergunta o garçom interrompendo um momento sublime. Penso em ficar nervoso mas deixo a raiva de lado. “Perdoa pai, ele não sabe o que está fazendo” parodio na minha cabeça uma frase bíblica para descontrair a mim mesmo.

-       Não precisa – lhe digo – Me traz dois Dry Martinis, três azeitonas em cada, vamos beber antes dos pratos. Depois um Pata Negra reserva 2008 vai cair bem, obrigado.

-       Aqui está o menu, Senhorita. – diz o garçom.

-       Obriga... – Ela começa a dizer quando a interrompo.

-       Não precisa, já sabemos o que vamos comer, quer dizer, eu sei o que eu vou comer e o que ela vai comer.

Rimos levemente enquanto a curiosidade do amor à minha frente crescia sem saber o que comeria.

Por entre pequenas conversas sobre futilidades chegam os Dry Martinis. Ela bebe rápido, como se quisesse a comida de uma vez, ou a verdade. Minha paixão nunca foi por mulheres burras, sempre por inteligências equiparadas à minha. Para amar, sempre pensei, você tem que admirar. Bebemos e o garçom voltou perguntando sobre os pratos.

-       Para ela um salmão ao molho de limão siciliano acompanhado de purê de mandioquinha, por favor. Para mim uma Maminha Au Poivre com lascas de batata frita salpicadas de sal grosso e alecrim – disse antes de acabar com o Dry martini, limpar a boca com um gole de água com gás e experimentar o Pata Negra. Estava ótimo, como sempre está.

Os pratos chegaram e nós comemos enquanto acabávamos com a garrafa de vinho e partíamos para a Heineken, naquela garrafinha verde de vidro que lhe traz um status europeu. A Pimenta do reino fresca do Poivre fazia toda a diferença quando as lascas de batata eram banhadas naquele molho espesso. O cheiro de limão subia ao ar enquanto ela degustava o doce purê de mandioquinha.

-       Satisfeito, senhor? – O garçom perguntou antes de retirar os pratos.

-       Como sempre – lhe disse cordialmente. – Agora, para a sobremesa, traz para a gente aqueles ovos nevados com creme de baunilha e duas colheres.

Comemos a sobremesa que chegou alguns minutos depois. Estávamos sinceramente satisfeitos e, mutuamente, nos esticamos para trás das cadeiras e repousamos nossas mãos na barriga.

-       Brian, me fala, por que você me chamou aqui? – Ela disse.

-       Você promete me deixar falar até o final? – lhe perguntei enquanto levantava a garrafa e o garçom, prontamente, depositava mais uma garrafa de Heineken sobre a mesa.

-       Deixo. – ela disse preocupada.

Demorei-me alguns segundos para começar a falar. Tinha à minha frente aqueles olhos claros, naquele corpo pequeno. Aqueles olhos assustados e lindos. Meu Deus, como ela era linda. Por cada canto daquele corpo encontrava-se alguma forma de beleza nunca antes vista. Era uma beleza só minha. O jeito que chegava perto, o jeito que me olhava, o carinho que me dava.

 “Hoje sentei-me em um bar.

Depois que saímos da festa, pedi para o Táxi parar ali no Mc Donalds da 23 de Maio, paguei-lhe  R$ 35,00 e resolvi seguir a pé até em casa. O sol da manhã já estava saíndo, seria uma caminhada gostosa se não fosse aquela sensação de falhar que sempre tenho quando te vejo. Sensação essa que corre desde os tempos que nos conhecemos, de novo, faz uns quatro anos, quando nos reencontramos e, teoricamente, viramos amigos.

Dormi pensando no que te dizer e acordei pensando em você. Você foi a minha última coisa de ontem e a primeira coisa de hoje, quando te liguei e ouvi a voz descansada do sono interrompido. Vou trabalhar o dia todo, você disse. Eu não forcei, não sei se tinha coragem de te falar tudo o que eu tenho que te falar na hora do almoço. Da hora do almoço até o dia seguinte o caminho seria longo demais. Prefiro a noite, onde o caminho para o dia seguinte é mais curto e a bebedeira mais aceitável.

Peguei a bicicleta e sai por ai, buscando um almoço solitário com uma revista ruim debaixo do braço e uma certeza formando-se na minha cabeça. Certeza de que, eu não sabia, apenas uma certeza.

Sentei-me no bar e na mesa à minha frente estava a mulher mais bonita do mundo. Ao lado dela sentava-se um cara não mais bonito do que eu, à moda francesa, como você mesma diz, lado a lado, olhando para a rua, você se lembra quando você me disse isso? Estávamos naquela choperia da avenida Paulista, tomando diferentes tipos de cerveja e você me disse que em Paris todas as mesas de rua são assim, com cadeiras lado a lado, não frente a frente. Enfim, ela era  uma linda mulher com esse cara não mais bonito do que eu. Olhava-a descaradamente por baixo dos meus óculos escuros, analisando cada posição, cada fio daquele cabelo fino e daqueles olhos verdes claro. Olhos muito verdes que me olhavam de volta, passando os óculos, passando os olhos, passando o peito. Ela me olhava e me via, enquanto o cara sentava ao lado dela, comendo, bebendo e falando coisas sem sentido sobre casas, trabalhos e amigos.

Ficamos nesse jogo de olhares por muito tempo enquanto eles conversavam de formal informal, como melhores amigos, numa tarde que nada de especial aconteceria. Ficamos nesse jogo de olhares até que os dois levantaram-se, pediram o carro para um manobrista de vinte e cinco reais, abraçaram-se e beijaram-se carinhosamente. Como dois melhores amigos beijariam-se carinhosamente, boca a boca, sabendo do segredo da vida, sabendo que a vida não tem uma hora e meia, sabendo que o simples da rotina do amor vale cada minuto que se vive.

Ali, vendo aquele casal em toda a simplicidade que pode existir eu nos vi. Vi tudo o que a gente já passou lado a lado, como melhores amigos e confidentes e tenho que te dizer:

Ser seu amigo para mim não basta. O prazer de sair com você, mulher, é enorme, mas a chegada solitária em casa me traz, sempre, o sentimento de falha. Falho como homem por não ter você ao meu lado. Falho como homem por não fazer com que o meu amor verdadeiro fique ao meu lado. Ter você como amiga não é um prazer, é uma dor eterna de um semi prazer, de um semi orgasmo de uma semi vida. Eu olho para você e vejo tanto mais que eu posso te fazer feliz. Olho para você e te odeio por esse bloqueio, te odeio por você não deixar o que a gente tem fluir falando que “é melhor assim”. O amor e o ódio andam juntos, dizem por ai...

Não posso mais te ver, mulher. Não dessa forma, não com essa sensação que eu sempre tenho. Não tenho em você uma amiga, nunca tive, sempre repousei em você um sentimento muito maior que imperfeitamente foi correspondido durante uma pequena parcela da vida que nós já tivemos juntos.

Se a culpa é sua? Não sei.
Se a culpa é minha? Tenho certeza.

A culpa mora naquele discurso babaca que formou a nossa relação. Do amor livre, da vida boa, das amarras soltas e do amor proibido. A culpa mora naquele xaveco barato que e te dei num bar qualquer para fazer você me beijar sem culpa de trair um namorado distante.

Essa é toda a culpa.

Não posso mais te ver, mulher. Não posso mais sair com você, não posso mais te conhecer, não posso mais te abraçar e sentir a simples possibilidade de qualquer coisa que seja que nem eu mesmo sei.

Deixo aqui, agora, essa conta paga, essa cerveja por beber, essas lágrimas nos olhos e essa noite que vai demorar a passar. Deixo a volta solitária, você e seu carro, por que eu vou caminhar, vou caminhar alguma nova vida que eu nem sei qual é. Alguma nova vida que eu não preciso esquecer, a cada partida de cada encontro que nós temos, o quanto eu amo você. Vou para um nova vida que terei em mim, quando penso em você, boas lembranças de um amor impossível. Do meu único amor impossível.

Do meu único amor verdadeiro.”

Levanto-me e saio sem olhar para trás.

Sem nunca mais olhar para trás.

1.5.12

Múscia 02

E os testes continuam a toda


A noite continua quente a hora não passa
Não tem o sol pra dizer que está cedo
Nem a lua para dizer que está tarde
Nem o copo para dizer que está vazio

 E a mulher do vizinho dizendo que está frio.
Me deleito com ela por um instante
Imagino aquele peito grande que ninguém mais toca
Penso naquele desejo que ela tem de por pra fora
Todo o tesão por qualquer vendedor que bata a sua porta.

Dou um sorriso e pago a conta do bar
Valeu seu josé, eu digo, já vendo aquele olhar.
Ela me espera do lado de fora, fazendo hora, fazendo jeito

Não consigo pensar em outra coisa
Enquanto lhe acendo o cigarro, lhe oferço um trago
Deito minha mão naquela cintura e a beijo
 de perto ela olha e me joga,
Sorri, debocha, me faz feliz, encosta e vai.

Vai embora levando um pedaço barato do que eu tinha aqui
Deixo a moça de lado e começo a subir a ladeira
No bolso levo o necessário, uma onça, 20 amigos e um trago
Olho para cima enquanto a chuva começa a cair
Não, noite sorrateira, não é água que vai me fazer desistir.



A noite continua quente e aqui a hora não passa
Não tem o sol pra dizer que está cedo
Nem a lua para dizer que está tarde
Nem o copo para dizer que está vazio

Não vejo nenhum conhecido chegar.
Encosto no balcão, pego a caneta e o papel
E começo a anotar tudo o que vejo e
Penso naquele desejo que eu deixei passar.

A cabeça balança com aquilo que não quer pensar
Acabo o copo, bato no bar, deixo a onça sair,
Vou passear como quem não tem nada a perder
Deixando o mundo todo me ver nessa ladeira a subir.

A chuva está mais forte agora.
Eu estou mais bêbado aqui fora
O suficiente para abrir os braços e rir
Rir sem parar, sem se importar com os olhos em volta

Deixo o meio da rua ao som das buzinas
Deixo o meio fio da calçada ao som dos feirantes
Deixo a cama ao som do despertador me levando
Levantando de dia um corpo da noite
Que levanta e ri, vendo a vida passar.




Música 01

Então.... essa é uma fase nova ai, de um amigo que tá afim de montar essa parceria musical.

Como eu não entendo nada de poesia, de escrever música e coisas assim, eu tô treinando.

Adoro elogios, mas o que eu amo mesmo é crítica, ok?

Vamos lá...

Ah... essa séria vai sem foto.


Vem de longe, vem de anos atrás
Tudo o que a gente viveu
Tudo o que a gente já fez e faz

Hoje em dia bebemos juntos
Olha, ri, canta, sorri, toca.
Mas quando a gente dança,
Nossa cabeça cansa sem sentido

Olho no fundo desses olhos claros
Vejo toda a confusão dos anos que nos mentiu
Era para ser tão fácil o nosso beijo, tão
Simples o nosso desejo, mas não.

Agora eu fico longe,
fecho a porta,
fecho os olhos.
e não deixo ninguém entrar

Vem de longe, vem de anos atrás
Tudo o que a gente viveu
Tudo o que a gente já fez e faz

E vem lá de trás aqueles olhos
Vem de sempre o jeito de você,
Olhar, falar, me beijar de ponta cabeça
Fazer do meu mundo um quebra cabeça


Vem de muito tempo eu sozinho em qualquer lugar
Com a garrafa de metal no bolso e o cigarro na boca
Dou um trago amargo, dou uma baforada quente
Dou um beijo sozinho em qualquer mulher que passar

Só pra ver se o seu gosto está lá,
Aquilo que eu nunca encontro
Aquilo que nunca vai estar
Você sabe por que,

Porque vem de longe, vem de anos atrás
Tudo o que a gente viveu
Tudo o que a gente já fez e faz


Sobre garrafas, valores e crostatas




Chovia e fazia frio no centro enquanto ele caminhava em busca de alguma história. Fazia duas semanas que ele beirava a loucura, pairava por aquela linha tênue do que é realidade e do que é loucura. A realidade é louca, pensava, mas isso não é pensamento são, é essa linha de pensamento que leva à total loucura – concluía.

-       Preciso das palavras, aquelas palavras que me deixam longe da loucura total. Total Madness como dizia seu grande ídolo.

As palavras corriam cheias em sua cabeça. Para quem tenta silenciosamente sair dessa condição de gado humano da qual vivemos, qualquer simples forma de engôdo social / publicitário tem uma força devastadora, tem a força para colocar esse ser humano na rua em busca de alguma coisa que não seja a completa loucura.

Tudo começou numa pequena viagem de carro. Ele parou para comprar uma água de garrafa, daquelas garrafas bonitas, cheias de promessas de saúde e felicidade, aquela água dos deuses que te deixa mais leve, te faz sorrir e, quem diria, viu ele numa propaganda televisiva, realiza seus desejos! Enquanto ele aguardava na fila notou a garrafa mais fina em suas mãos, aquela garrafa de qualidade inferior, enquanto lia na beira da estante:


“Nova embalagem! Beba, Feche, deseje e torça!”


Via a cara de uma bela mulher em plena felicidade em um parque, ora com suas amigas, ora com seu cachorro perfeito, ora com seu marido perfeito, ora solitária, com sua solidão perfeita, tudo isso tomando essa água maravilhosa, agora com sua garrafa perfeita com 20% menos plástico.

20% menos plástico na embalagem, eles diziam, mais fácil de reciclar, eles diziam. O golpe publicitário pegou-o em ambos os testículos desprotegidos. Ele pensou e viu a cara de 20 magnatas da publicidade sentados em volta de uma mesa com seus 20 clientes magnatas tentando descobrir como passar para seus consumidores cegos que aquela boa, resistente e bela garrafa agora teria 20% menos plástico, por que eles precisavam economizar na matéria prima. Por que eles queriam lucros maiores do que já tinham vendendo água. Pura e simplesmente água. Não aquela água que desce dos alpes suíços diretamente para aquelas belas garrafas de vidro verde, mas aquela água que eles pegavam de qualquer poço artesiano escavado no dia anterior, filtravam e colocavam numa garrafa, agora, com 20% menos plástico.

-       Já sei, a moda agora é ecologia – dizia o Marketeiro engomado em seu Ipad 2 com 20% mais lítio.
-       Boa – Disse o criativo com seu óculos com 20% mais viadisse – A garrafa é fina, é pior, vamos falar que é mais fácil de reciclar e que você pode torcê-la e fazer um desejo!

Todos riram alto nessa mesa de 40 pessoas 20% mais ricas. E nós rimos aqui também, pela propaganda televisiva com toda a perfeição já descrita, com todo o nosso envolvimento ecológico comprando, agora, água com a garrafa mais fina que ajuda na reciclagem.

-       Somos ecológicos, somos corretos, somos fiéis à esse planeta ao qual devemos tanta coisa! – ele ouvia a multidão gritando enquanto compravam toneladas de garrafas frágeis, vagabundas e enriqueciam aqueles que lhes exploravam com luvas de pelica.

Era demais para a cabeça de um homem só. Ele pegou a garrafa e jogou no chão com força. Era seu ato de rebeldia, sua própria contrapropaganda diretamente no PDV daqueles filhas da puta que tentavam tirar mais e mais dinheiro de um povo que precisava cada vez de mais e mais dinheiro A garrafa rapidamente espatifou-se jorrando água para todos os lados, enchendo de água a coxinha que uma mulher comia, molhando os cabelos loiros e lisos daquela criança que brincava feliz e agora chorava, derrubando o velho cego que passava desapercebido pela poça formada. Ele sentia os olhares pesados enquanto puxava um cigarro por detrás do balcão e acendia-o no meio da loja.

-       O-o se-senhor não pode fu-fumar aqui, dizia um funcionário assustado.

-       Eu sei – ele respondeu, dando uma tragada no cigarro e puxando uma pequena garrafa de vodka da estante, ao lado da água – Vocês que não sabem o que fazem. Eu pelo menos tenho a consciência por fazer alguma coisa errada. Vocês não tem a consciência de porra nenhuma! – acabou esbravejando enquanto saia da loja ouvindo as famílias o chamarem de bêbado, vagabundo, louco.

Louco.

A palavra bateu-lhe com força.

Não podia estar louco.

Não podia ser louco.

-       Preciso das palavras, aquelas palavras que me deixam longe da loucura total. Total Madness como dizia meu grande ídolo. – pensou ao sair da venda com um pouco de lágrimas nos olhos. – Preciso descansar, preciso de um pouco de sinceridade, preciso de um pouco mais de verdade nesse mundo consumido por essa nova ordem mundial que nos foi imposta, essa nova religião consumista onde nada é suficiente, onde todos são perfeitos e calmos e sãos. Preciso andar um pou...

-       Quer um carinho, amor meu, quer um carinho por R$ 50,00? – Ele ouviu a puta lhe dizer muito perto, perto demais, enquanto pensava – Quer um pouquinho de...

As mãos de Brian grudaram a vagabunda pelo pescoço, colando-a na parede. Os olhos daquela meretriz esbugalharam-se enquanto Brian a encarava de perto, enquanto ele sentia aquele cheiro de sabonete e ela sentia o bafo da morte chegar cada vez mais perto.

-       Não – ele disse – não quero seu carinho por R$ 50,00. Não quero te machucar também – Ele via os olhos descansando enquanto seus dedos achavam uma buceta cansada depois de um dia todo de trabalho – eu quero só que você feche esses olhos esbugalhados por um tempo enquanto te faço gozar com a sinceridade que nenhum dos seus clientes conseguiu.

A meretriz fechou os olhos e afrouxou os dedos do pulso de Brian, ela abriu as pernas levemente, olhou para o céu e soltou um suspiro enquanto Brian brincava com as palavras em seu ouvido e gratuitamente acariciava aquela buceta necessitada de um carinho. Uma lágrima escorreu dos olhos da morena quando Brian soltou-a e ela caiu, ainda com o corpo tremendo pelo orgasmo dado, na rua molhada do centro.

Um ato solidário, ele pensou, um pouco de amor para quem nunca teve.

Ele continuou caminhando sem saber para onde. Ao seu lado esquerdo, agora, o mar batia com força na barragem do calçadão e a chuva castigava ainda mais as árvores, os toldos e o rosto de Brian enquanto a vodka acabava e o frio começava a tomar conta daquela mente destruída por 20% menos plástico e 50% mais álcool no sangue.

 A frente do prédio continuava vermelha e a luz do sexto andar continuava acessa. Ele cumprimentou o porteiro e pegou o elevador. Na porta já sentia o cheiro doce de casa. Ela abriu a porta e abraçou-lhe com sinceridade.

-       Netinho! – disse para o homem de 28 anos ensopado à sua porta – nossa, como você está molhado! Entra, vai, toma um banho quente enquanto a nonnina tira as crostatas do forno e lhe abre uma cerveja! Má Vá! Assim você vai pegar um resfriado, menino!

Brian sorriu e foi para o banho feliz.

Nada nesse mundo é tão triste que uma nonna não possa consertar com algumas crostatas...


23.4.12

O Assalto e um Par de olhos Claros

A noite foi bem dormida. Por volta das 10:30 abri os olhos vendo um resto da garrafa de cerveja tomada na noite passada. Eu via que era um sábado frio Pela brisa gelada que entrava pela janela, brisa acompanhada de um sol esquentando o resto da cerveja da noite passada naquela garrafa verde reflexiva. Em um pulo levantei da cama e cai de frente para a série de exercícios matinais. Essa onda saudável, de exercícios matinais, me toma até nos finais de semana... mais um vício para a minha vida. 

O sol continuava a invadir o quarto e, após o banho, acendi um cigarro enrolado por mim mesmo e fiquei contemplando o que havia para fora da minha janela. Contemplando o que havia lá fora e sentindo o sol esquentar minhas partes baixas, pernas e um pedaço da barriga, essa que some cada vez mais pelo meu novo vício de vida. Acabo o cigarrinho, acabo com a caixa de suco de soja e me preparo para ir até uma cidade próxima à minha. Aquelas coisas, né, vai ter um churras, vai ter cerveja, se pá aparece uma gatinha solteira e eu tô ali, bonito, dando sopa, nunca se sabe. Foi assim que eu arrumei a última mulher que ficou comigo por dois anos, seguindo meu preceito base de que é mais fácil conhecer alguém decente num ambiente que você já conhece outras pessoas decentes mais profundamente. É simples. É mais fácil você sair com uma amiga de uma amiga sua e dar tudo certo, do que você pegar uma vagaba qualquer na balada e pensar que vai ter uma história de amor. E outra, balada é péssimo para conversas. E eu sou bom em conversas, palavras e conversas.

 O caminho foi mais longo que o necessário, talvez por eu não ter tanta pressa assim, deixei o sol bater, o som do carro estava alto e com boa música, do meu lado tinha mais uma caixa de suco de soja e as pistas estavam livres. Dirigir naquele momento estava sendo um prazer raro, afinal, andar de carro acaba virando um programa para quem trabalha muito perto do trabalho e gosta de ir em reuniões de bicicleta. Tem toda uma paisagem a ser admirada quando se deixa o stress de dirigir de lado e até os prédios do lado direito da Marginal podem formar belas composições imagéticas.

 Um grupo de pássaros cruza o céu voando enquanto eu saio da marginal e entro na rodovia que me levaria a tal cidade próxima com churrasco, possíveis amores e a diversão etílica garantida. Na minha cabeça fluia aquele pensamento do bom final de semana que está por vir e toda aquela boa sensação de sair um pouco da rotina tipicamente Paulistana para enfrentar alguma coisa nova numa cidade vizinha. Acho que a distância das pessoas que você sempre vê, o tempo de viagem para algum lugar mais distante torna a festa mais atrativa, diferente. Tá ai um por que de toda a minha diversão entre os 17 e 22 anos, as Raves eram sempre distantes.

 - Lui, acorda ai, vagabundo! Rá! Cheguei! Levanta essa bunda dai que eu tô precisando tomar uma cerveja. Pode ser, na rodoviária, isso, vou estar no bar mais próximo dali tomando uma gelada. Fechado, garoto, Abraço!

Não demorou mais do que 30 minutos para o Lui acordar e chegar no bar próximo à rodoviária. Tempo exato pra tomar uma Serra Malte gelada e dar uma talagada naquela cachaça do Barril de um bar com frequentadores animadíssimos com os quais eu já conversava furiosamente sobre futebol e sobre a Saveiro nova do açougueiro, que também estava presente.

 - Fala Brian, como você tá, meu querido!? Pronto pra festança?
- Grande Lui, 100%, vamos logo que eu preciso continuar nessa cervejinha tá dando gosto! A carne tá assando!?
- Vamos almoçar, tô numa ressaca tensa, amigo, mas chegando lá o troço já vai estar quente.

 Depois de algumas erradas de caminho Lui finalmente conseguiu chegar na própria casa. Ele tem um problema com caminhos, diz que é por que a cabeça dele funciona rápido demais, sei lá. Sentamos, fumamos, tomamos café e conversamos animadamente com seus familiares enquanto comíamos muito bem o que Bell nos servia. Uma carne apimentada com azeitonas, um arroz com 07 grãos e azeitonas e uma salada de tomates doces. Quase me esquecendo do churrasco, saímos.

No caminho paramos no mercado para abastecer o carro com dois fardos de cerveja e rumamos para um churrasco em toda a normalidade que um churrasco pode ter, pensando em quem estava lá, em que mulheres estariam lá. Pensava eu, como sempre penso dentro desse lado romântico inquestionável que eu tento esconder de alguma forma mas nunca consigo. Que mulheres estariam lá. Será que apareceria um olhar daqueles que eu não deixaria passar? Alguma outra que balançasse meu mundo como aquela balançou 05 anos atrás? Paramos o carro. Seria bom, seria bom novos olhos claros que eu pudesse chamar para passar o final de semana em...

 - Seu carro tem seguro – Perguntou Lui rapidamente, cortando meus devaneios sobre um olhar futuro e me trazendo para a oposta realidade de três ladrões abordando-nos no carro com uma arma apontada para a minha cara.

O tempo dá aquela parada, você não ouve mais nada direito, a adrenalina sobe rapidamente parecendo uma overdose de algum anfetamínico qualquer enquanto os olhos não conseguem desgrudar daquele buraco escuro, aquele buraco onde começa a arma pelo ponto de vista da vítima. Aquele buraco onde começa uma arma e que pode sair o que vai acabar com a sua vida.

 - PERDEU, PLAYBOY, PERDEU, SAI DO CARRO! VAI, VAI, VAI! BAIXA O BRAÇO, PORRA! AGORA CORRE, CORRE PRA LÁ! VAI MALUCO!

BAM!!!

 O tiro saiu.

Sinto o sangue quente em contato com os meus olhos enquanto o corpo estatela-se no chão, sinto o buraco que a bala fez no meu crânio, sinto, sinto o ar saindo do pulmão e o negro tomando conta de tudo.

 Mentira, ele não atirou.

Mas acho que seria um fim interessante morrer, depois de descrever toda essa trip super legal.

Vamos voltar para a outra realidade, essa, que escrevo para vocês...

 - PERDEU, PLAYBOY, PERDEU, SAI DO CARRO! VAI, VAI, VAI! BAIXA O BRAÇO, PORRA! AGORA CORRE, CORRE PRA LÁ! VAI MALUCO!

Obedecemos prontamente e em menos de 30 segundos eu olhava para o horizonte e via três filhas da puta levando grande parte do meu patrimônio. Corremos para a festa e acionamos a polícia imediatamente.

Da varanda ouvimos um helicóptero sobrevoando os céus atrás do meu carro e viaturas começaram a cortar a avenida principal

 - Esses filhas da puta estão fodidos! – eu gritava antes de atender um telefonema de um número da cidade.
- Senhor Luan, seu carro foi roubado, confirma? Perfeito. Ele foi encontrado na rua XYZ, na altura do número 123.

Comemorei o achado com um brinde entre todos os convidados, todos muito prestativos na tentativa de baixar minha adrenalina e voltar para a diversão do final de semana. Deixo aqui um obrigado especial para o F.L., grande novo amigo que deu uma puta ajuda com a merda pós roubo.

07 horas se passam entre 04 da tarde e 11 da noite num leva e trás de carro, reconhecimento do assaltante e má vontade dos servidores públicos desse país...

Quando voltamos a festa parecia ter acabado. Três mulheres estavam logo na varanda jogando cacheta com mais um homem e mais um ou dois gatos pingados dormiam na frente da televisão.

 - Porra, que merda! Perdemos a festa! – Esbravejou F.L.
 - Calma lá, garoto, calma lá... os caras só foram pegar mais cerveja.

Dentro de 05 minutos todos estavam animados de novo com cerveja a ser tomada até a manhã seguinte. Alguns grupos formavam-se em ambientes diferentes. Podia ouvir as risadas animadas do jogo lá fora enquanto os homens conversavam animadamente no interior da casa sobre a o nível da pornografia atual e todas as formas de sexo que já foram produzidas e gravadas. Eu andava no limbo pós pico de adrenalina e início de intoxicação alcoólica moderada quando decidi entrar no jogo das moças. 

Sentei-me ao lado de C., a dona da casa, casada com o aniversariante, de E., namorada do F.L., o tal novo amigo e na minha frente uma completa desconhecida até então. Ela olhava para as cartas, concentrada, numa gana taurina de ganhar pelo menos uma vez.

B. ela chamava. Enquanto elas falavam loucamente dos prazeres, dificuldades e intrigas do signo em comum eu palpitava coisa aqui coisa ali para arrancar alguns sorrisos da mesa, principalmente de B., que agora trocávamos algumas palavras e pude ver o quão claros eram aqueles olhos.

Eram claros e ela de sorriso fácil. Sorriu durante o jogo todo enquanto eu fazia as piadas e descobria um pouco mais sobre aquela moça desconhecida.

A noite acabou.

Enquanto eu olhava para a rua, à espera de mais um ladrão acabando uma cerveja que eu havia escondido no funda da geladeira, não vi se B. tinha ido embora ou se subira para dormir. Encostei-me em duas almofadas que haviam sobrado na casa e dormi no mesmo instante.

Por entre arrumações, almoços, partidas de xadrez e televisores do domingo encontrei aqueles olhos claros mais uma vez.

Ainda escrevendo esse conto me impressiono como era claros. Muito claros.

19.4.12

Histórias Incompletas


1.
Eu ando de bicicleta enquanto os carros passam mais rápido pelo meu lado esquerdo. Na mochila levo uma camisa e uma calça jeans. Suo igual um camelo – essa expressão não faz sentido, se você pensar bem – enquanto visto uma regata preta encharcada e uma bermuda verde. Paro no farol, ao lado de todos os carros que me passaram alguns minutos atrás e sinto o olhar de todos. Existe quase uma inveja transformada em raiva por ciclistas da grande parte do corpo que é nossa cidade. A bicicleta ainda é uma bactéria contaminando um corpo que flui perfeitamente na sua ordem caótica.

O corpo que flui do outro lado da rua me lembra ela. Na verdade, era ela.

Era ela.
Naquele momento.
Era ela.

N.A. vendo agora esse pequeno poema de minha autoria, percebo a forma de uma mão fechada com o dedo do meio levantado, sabem? Tipo sorriso “:o)” ou o Homer... “(_8{|)” essas iconografias da internet... Um acaso sem subliminariedade nenhuma ou uma coisa mais subconsciente? Um subliminar de mim para mim mesmo? Uma explosão de raiva iconográfica enquanto o texto diz outra coisa.?
É... a metafísica de escrever qualquer conto...

Parado, atônito e ela cada vez mais perto.

10 passos e as lembranças daquele cabelo, Daquela nuca que minha mão encaixava-se com perfeição quando transávamos frente a frente e eu ia beijá-la.

05 passos e aquelas coxas macias que juntavam-se naquela pequena e perfeita xoxota, as lembranças das coxas apertando meus ouvidos enquanto as mãos puxavam meus cabelos.

02 passos ela olha nos meus olhos. Estamos vidrados um no outro. Eu nela, ela em mim, o telefone na orelha, os grandes óculos.


Ela chega e passa
embora deixando um leve sorriso
um cheiro que não era dela.
Naquele momento era ela.

2.
Não era ela.

A inviabilidade da sua presença, naquela hora, naquele lugar, me fez olhar para frente e seguir o caminho.

“O caminho de casa ou o caminho até ela.” Eu pensava enquanto ria sozinho pensando em como é fácil escrever músicas sertanejas.

Músicas.

Recebi, nesse final de semana o segundo convite de um amigo meu para uma parceria musical. Não tenho ideia de como se faz isso mas gostei de me imaginar nessa nova forma de expressão. Quem sabe não temos aqui, nesse momento, o novo sucesso do mundo moderno emergindo com letras de amor, bebidas, mulheres, tristezas e alegrias desregradas?

O problema dos músicos de hoje em dia é que eles não sabem onde parar de escrever. Eles continuam, contam a história e sempre colocam um final nessa história. Vai escrever um livro, caralho. O bom é sem o fim, o bom é deixar o jogo aberto pra quem tá ouvindo. Porra, música te leva para um outro estado, não funciona como um filme, onde tem uma história. A música é fundo para a história de cada um. É uma forma mais delicada de expressão. É sempre o caminho, mas não o fim.

Vamos lá, vamos revolucionar o mundo da música ou apenas chacoalhar o nosso próprio mundo com alguma novidade. Essa é uma razão pela qual vale a pena ir de bicicleta até o parque ou encher a cara num buteco solitário, ambos com um caderno e uma caneta na mão.

A vida tem que ser na rua. Em casa não acontece nada.


3.
Da varanda eu vejo os ratos passando pelos troncos e canos da rua. Alguns tentam passear pelas árvores do meu jardim, mas os cachorros são espertos e sempre matam um aqui, outro ali, para assustar os ratos sem teto dessa rua sem saída que eu moro. Os ratos são grandes, mas são bonitos. Sempre assustados com os passantes do centro espírita, eles se escondem e depois de 30 minutos aparecem novamente. Eles aparecem e eu arremesso mais uma garrafa de cerveja no casco.

Mais uma garrafa de cerveja
Mais uma lua no céu
E eu, aqui sem você.

Rá-Rá. Vou ser um sucesso.

Nada contra os ratos, são as baratas que me deixam nervoso. A grande pegadinha divina de colocar asas num bicho que nunca foi feito para voar. Deus, deus… o sexto dia deve ter sido uma bagunça ai em cima ahn!? Aposto que o chão ainda gruda e que você não se lembra de muita coisa, certo, Senhor!? Então, a barata foi uma das CAGADAS que você fez aquele dia. A Barata e essa história toda de Adão e Eva. Papo de bêbado ressentido com um amor abandonado.

Separa a cerveja. Daqui uns anos tô ai.

Histórias incompletas. São essas que deixam a minha cabeça vagando por todas as garrafas de vinho e noites da minha vida.