P.S. Tem algumas coisas que não precisam da
fagulha inical da criação. Elas estão sempre queimando dentro de qualquer
criativo, seja das palavras, seja das artes visuais, seja dos criativos da
mente e por ai vai. Falo por mim, escritor, que achou aqui a total liberdade
para ser quem eu quiser, como eu quiser. Posso usar drogas sem efeitos
colaterais, posso fazer sexo sem camisinha sem medo da AIDS, posso falar
verdade como se fosse ficção e vice e versa. Tudo isso apazigua um pouco a
complexidade de existir. Funciona como um HD externo de algumas coisas que você
precisa tirar da cabeça para o sistema funcionar melhor.
A loucura toda, desse tal fogo que queima, é
que não dá pra apagar toda hora, entendem? Não funciona assim, não posso
escrever qualquer coisa que me venha a cabeça tendo em vista que eu preciso,
pelo menos, manter uma qualidade textual que EU ache aceitável. E o meu padrão
para comigo mesmo é alto.
Então fico eu rodando na cama, na rua, no
feijão do almoço, no copo do bar, tentando encaixar as palavras, tentando
formar um começo e um fim que siga uma linha de escrita, que tenha a pegada
beatnik que me formou como escritor, mas sem ser pedante, que tenha aquele lado
romântico que sempre tive, mas sem ser meloso.
É uma química complicada, mas prazerosa.
Assim como as mulheres.
Da saída do
metrô vejo o sol e os ambulantes. O dia está claro com aquele sol de outono /
inverno, vento frio e sol quente. Tudo perfeito para uma caminhada descontráida
até um boteco bacanudo da Vila Madalena.
Tenho andado
pouco de carro ultimamente. Prefiro o tranporte público ou então a bicicleta.
Deixo a ecologia de lado nessa minha escolha. Não sou um cidadão padrão e acho
que o mundo não vai acabar mesmo que TODAS as pessoas do mundo peidem ao mesmo
tempo. Vejo nessa ecologia toda um sentimento religioso. Melhor, um
ressentimento religioso, uma culpa religiosa que não coaduna com a minha linha
de pensamento. Ando de metrô e de bicicleta pelas referências. O carro te deixa
naquele mundo fechado, chato, raivoso. As caminhadas e o tempo ocioso sentado
em um ônibus pura e simplesmente olhando a paisagem já faz a vida melhor, mais
calma, além de trabalhar a mente para melhores contos e sonhos.
Aos contos
primeiro.
Eu conto
uma história por pessoa que vejo analisando cada pequeno detalhe da roupa, do
cabelo, da condição financeira e das expressões corporais. Fico imaginando o
que no que aquela pessoa pensa, faço um pequeno filme de onde o ser vivo está
indo, para onde vai, quais são os sonhos, eles tem sonhos? Penso na infância e
faço uma biografia baseada em meras e simples conclusões tiradas de uma
olhadela rápida, seja no metrô, seja no ônibus, seja naquela mulher gostosa que
passa na rua e todo mundo tece um comentário malicioso. Eu não teço comentários
maliciosos. Eu monto filmes maliciosos na minha cabeça, imaginando como ela
fala, como ela faz, como ela deixa de fazer. Penso nos problemas, nas soluções
e nos prazeres de possuir toda aquela carne por 01 hora, 01 dia, 01 ano ou 01
vida. Uma olhadela em uma pessoa comum pode me entreter por um quilômetro de
caminhada mansa.
Toda vida
vale um roteiro de cinema. Sem aquela babaquice de aproveite cada momento, ou
de que a vida é feita de momentos e você não pode perder nenhum. Perdão a vocês
assistenciados por livros de auto ajuda, mas a vida é feita de rotina, de uma
boa e velha rotina dos seus gostos, desgostos, prazeres e desprazeres. É um
ciclo constante de novidades, mesmices, dores e prazeres. E esse ciclo, de
qualquer pessoa, vale uma hora e meia em qualquer cinema se você souber contar
a história de um ângulo favorável. Seja da vida fácil da piriguete que vai pra
balada todo dia ou da velha senhora que ainda lava a roupa do marido, mesmo
depois que este já morreu.
Um brinde
aos contos de uma vida de um estranho qualquer.
E agora,
aos sonhos.
Eu lembro,
claramente, do meu primeiro sonho. Na verdade foi um pesadelo que repetiu-se ao
longo de muito anos. Eu lembro de ser pequeno, muito pequeno, dormia na cama de
mãos dadas com a minha nonna, acho que foi logo após a morte do meu Nonno,
quando ainda morávamos na Guarará. Tenho ótimas recordações daquele
apartamento, mas isso é outro assunto. Dormia algumas noites com a minha Nonna.
Nunca por medo, mas por esse amor italiano de famiglia, sabe? Como eu sempre me
mexi demais na cama, minha nonna colocava uma almofada entre nós e nos dávamos
as mãos por baixo dessa almofada. Foi nessa época que eu tive meu primeiro
pesadelo. Eu estava sozinho, no meio do mar e um redemoinho enorme formava-se.
Eu ficava apavorado e me segurava em uma daquelas bóias típicas dos desenhos
do pica pau, quando ele ficava
perdido no mar e se salvava numa daquelas bóias altas com uma luz no topo. Eu
nunca acordava chorando. Apenas acordava e ficava encarando o teto, vendo minha
nonna dormir e sentia medo de dormir de novo, por que sabia que o sonho iria
repetir-se. E esse sonho repetiu-se por muitas e muitas noites de muitos e
muitos anos fazendo com que eu me acostumasse com o mundo bizarro dos sonhos.
Fui acostumado a ter pesadelos, familiares transformando-se em monstros, sonhos
desconexos e surreais. Jamais sonhei com a normalidade.
Conforme
fui crescendo comecei a ter sonhos eróticos. Sonhos eróticos surreais, com
mulheres que eu conhecia, professoras da escola, amiguinhas que tinham vaginas
do tamanho de um braço e eram lisas e estranhas por dentro. Eram lisas e secas
e trasnformavam-se em bolos de carne, depois coroas, depois pessoas sorridentes
mais uma vez.
Continuei
nos sonhos estranhos até conhecer Castañeda, agora já na faculdade e fiquei em
êxtase quando Don Juan explicou a ele sobre os sonhos lúcidos e como você podia
ser duas pessoas ao mesmo tempo e fazer coisas mundanas pelo seu mundo dos
sonhos. Trabalhei isso por longos anos até começar a dominar a arte dos sonhos
lúcidos utilizando todas as técnicas que li em livros e internet quando a mesma
ficou popular entre as pessoas comuns.
Dentre
esses sonhos tenho passeios por universos diferenciados, mas que sempre se
baseiam no que tenho como referência do mundo. Foi quando eu entendi que toda
essa piração surreal e toda essa desconexão dos meus sonhos tinham como base
toda a realidade e conexão do mundo. Aqui entra o por quê andar de metrô, a pé,
ônibus, muito mais do que eu andava antes.
Referências.
Seja de pessoas, lugares, situações ou ambientes. São essas referências de um
mundo comum, de um “mundo mundano” que me leva para esse outro universo quando
eu sonho, envolvendo Tsunamis de carros da década de 70, armaduras, voos,
metamorfoses e aviões feitos de algodão cru.
Dentre esses
passeios, noite passada deitei-me e na minha total ausência de sono fechei os
olhos para tentar dormir.
Dormi e
comecei a sonhar. Passei por um universo mais mágico, que lembrava-me meu sítio
com todas as árvores e duendes que eu via quando era criança. Eu tinha asas,
tinha o formato de um pássaro meio tecnológio com asas retráteis de metal e
demorei-me, no sonho, alguns dias para entender o por que dessas asas. Quando
descobri, voei. Voei para uma pequena casa que eu conheço e ali jazia uma mulher
deitada de lado, respirando levemente, sonhando.
Abracei-a
carinhosamente.
-
Brian!
O que você está fazendo aqui!?
-
Calma,
Mulher, é só um sonho. Senti saudades e vim te ver. Senti falta do seu corpo e
do seu abraço e vim te sentir.
-
Hmmmm
– ela sussurrou enquanto encaixava o quadril em mim e deixava as costas
descansando na minha barriga.
Já não
tinha mais o formato de um pássaro. Eu começava a desaparecer, a sumir. Buscava
as palmas da minha mão para continuar sonhando, para continuar ali, abraçado. O
corpo começava a sumir, cada vez mais eu sentia menos o toque, meus dedos
translúcidos passavam pela carne dela e eu sentia suas entranhas.
Dentro de
toda essa sensação de realidade eu disse segundos antes de sumir:
-
Preciso
ir embora, mulher, me liga amanhã de manhã, me liga e fala que sonhou comigo.
Desapareci
e acordei com o telefone tocando e um cheiro doce no ar.
-
Oi,
ela disse.
-
Oi
- eu disse – sonhou comigo?
-
Não.
Só senti saudades.




