13.6.13

Deixa

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Deixa.
Deixa a vida correr.
Para de tentar controlar aquilo que não tem controle.
Para.
Pensa e observa e conversa e seja você mesmo, sincero, verdadeiro, real.
O mundo já anda cansado das suas máscaras, eu ando cansado das minhas máscaras.
Todo o mundo, quero dizer. Seja real, seja você mesmo, expresse suas ideias de maneira que elas sejam condizente com você.
Deixa o suor escorrer da face, deixa aquela piada besta sair da boca, deixa o elogio escapar de manhã e descansa a cabeça sossegado no travesseiro a noite.
Meu desejo é simples e o seu também, lá no fundo, o que você quer mesmo é só uma vida que deixe uma pegada bonita no mundo. Pra isso não precisa de muito esforço, precisa só de percepção do que é real e eterno e do que vai morrer naquilo que a gente insiste em chamar de amanhã.
Vai pra rua gritar se você tem vontade, faça parte de uma ONG, ajude os animais, divirta-se como lhe apetecer e se seu apetite for destrutivo para você mesmo, foda-se. Nem você é dono de você mesmo.
Aceite as consequências dos seus atos com a coragem que você teve para realizá-los. Não seja covarde perante as cagadas que você fez e chame isso de experiência. Gosta de fazer merda e quer repitir? Ok, sinta-se à vontade. Quem sou eu para discordar dos porcos que gostam de chafurdar na lama.
Se o seu luxo é o lixo, banqueteie-se.
Não esconda seu sentimento por ninguém, não leia revistas de auto ajuda que explicam que para conquistar uma mulher você deve ignorá-la. De novo, seja sincero. Não ache que o homem da sua vida não te deseja se em momento algum você expressou esse desejo. Abra-se para o mundo sem medo das porradas que você vai tomar. E você vai tomar muitas.
Chora quando tiver vontade naquela propaganda de margarina ou naquele projeto gigante que você fez e deu certo ou completamente errado. Dance como um idiota. Expresse-se da forma que você quiser por que arte é você viver independente do que os críticos falam.
Ame sem pensar em traição. Não somos monogâmicos e lutamos uma vida por isso. Fique sossegado, se você ainda não foi corno, um dia ainda vai ser. Se você já é corno, sossega, todo mundo é. Mulheres pensam em sexo assim como os homens e tem desejos que ultrapassam o amor pelo parceiro. O sexo é cego, a paixão enloquece e as entranhas assumem o controle daquilo que um dia lhe disseram ser errado e assim aceitamos essa verdade. Essa verdade de tantos anos atrás talvez mais velha do que o conceito de terra plana.
Você não é dono de ninguém. Entenda que amor é liberdade e seja o primeiro a ser livre e nessa liberdade seja prisioneiro se assim lhe apetecer.
Olhe, observe, contemple. Desligue seu celular, converse com quem está perto, encontre quem está longe, seja mais real e menos virtual por que um abraço ainda vale mais do que um smile.
Crie um texto idiota como esse, escreva um livro como Machado de Assis ou Paulo Coelho, beba como Buk ou seja Vegan e só coma as maçãs que caiam do pé, fique suado, tome banho gelado no frio e experimente o novo sem ter medo do medo, do novo, do sofá diferente do seu.
Tem um mundo a sua volta que não é o seu. Entre sem ser convidado, faça bagunça e deixe um bilhete convidando alguém a bagunçar o seu. Conviva.


26.4.13

Pra você. Sem você.

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E da mente vai esvaindo qualquer forma de lembrança de você. Lembranças daqueles dias que a gente sentava para beber, ora os prazeres de um bar simples da Zona Sul, ora um drink sofisticado dos Jardins e deixava o rosto dolorido de tantas risadas e a mente renovada depois de tantas conversas. Nunca menti e a sinceridade sempre foi um defeito nesse caso. Me joguei, nadei de braçadas numa piscina de cacos de vidro.

Mas tudo esvai. Não tenho mais uma memória clara de você como tinha até certo tempo atrás. Vejo seu sorriso por fotos mas já não me lembro do som da sua risada. Leio suas coisas banais mas já não lembro dos tons da sua voz quando você me fazia rir com alguma besteira ou quando pedia um abraço e deixava escorrer uma lágrima no meu ombro sem nenhuma razão aparente. Reconheço seu corpo desnudo nas imagens mas minha mão já não lembra mais o toque suave da sua naqueles momentos que você estava do outro lado da mesa e nos tocávamos. 

Eu na ânsia de ir mais longe, você na paúra de ir adiante.

-       Não quero que você me machuque – dizia você enquanto olhava para o copo.

E nesse medo quase irracional, quase bem articulado, você nunca entendeu que toda a minha intenção era justamente te machucar da melhor maneira possível. No limiar tênue entre uma bela surra e o êxtase do prazer. Queria te machucar quando mordesse seu ombro e subisse beijando-lhe o pescoço como um pedido de desculpas que faria seu corpo todo tremer. Queria arder-lhe a anca com um tapa enquanto acariciava a parte de trás da sua cabeça segurando seus cabelos com uma pressão dominante. Queria, talvez, até sangrar-lhe levemente o lábio enquanto você me sangrava as costas com suas unhas perfeitamente feitas para aquele momento.

Queria machucar sua mente, quando lhe agarrasse por trás, apertasse seus seios e sussurrasse no seu ouvido:

“Vou te foder hoje como você deve ser fodida.”

E ali, naquele momento, sua cabeça não saberia como reagir mas o que encontra-se no meio das suas pernas já teria a resposta na ponta da minha língua. E quando tudo acabasse e você entrasse no carro como mulher direita e independente que  você é, passaria a noite em claro por que partes do seu corpo não conseguiriam dormir talvez nunca mais. Mas você abraçaria o travesseiro, abriria um sorriso e dormiria com o medo de que talvez agora, talvez nesse momento que eu já lhe possuí por inteira e já conheço cada pedaço de você, por dentro e por fora, talvez agora eu parasse de lhe gostar e lhe machucasse. Não lhe retribuísse aquilo que talvez – por que nem você saberia – você quisesse me dar.

Mas no dia seguinte nos veríamos e você teria a certeza de que tudo o que a gente teria seria a diversão, o tesão, o prazer e os copos de cervejas combinados com risadas quase loucas.

Mas já não lembro mais de você e enquanto acabo essas linhas sobra apenas um vazio dentro de mim. Sobra em mim apenas a sua ausência que deixa esse buraco ausente de qualquer sensação palpável de você. Enquanto deixo esse último registro de tudo o que poderíamos ter vivido mas você deixou passar por medo do amor, amor que talvez nunca viéssemos a ter, não consigo nem mentalizar os prazeres que teria com você. Escrevo para você, mas sem você. Escrevo com uma modelo mental criada com recortes de fotografias sem valor nenhum que você tira na frente do espelho urrando por elogios.

Repito.

Jamais menti para ti e jamais mentirei. 
Até mesmo quando perguntar o que eu sinto por você, num futuro não muito distante, serei compelido a dizer “nada”.

Mas deixando a certeza que poderia ser muita coisa.

23.4.13

Salto pra a minha morte

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A manhã levemente gelada pedia uma cerveja.

Olhei para o quarto, para a bagunça invaríavel de uma noite de sexo etílico com uma desconhecida que possivelmente jamais veria novamente. Fazia tempo que não aguentava mais a presença da mulher a minha volta após o coito. Queria que ela fosse embora, se transformasse num sanduíche ou simplesmente fosse para o lado escuro da casa e ali permanecesse quieta até a vontade aparecer de novo. Coisa que normalmente só acontecia na manhã seguinte.

Decidi não tomar a cerveja. Eram 06h30 da manhã e algo de extraordinário aconteceria hoje. Algo que mudaria minha vida ou talvez acabasse com ela. Decidi não tomar a cerveja mas não contive matar o fundo da garrafa de vinho enquanto olhava para o mundo pela janela. Sol batendo, nenhuma nuvem. A música tocava no computador enquanto eu esperava o momento de subir na bike e seguir sentido o destino. Sentido metrô vergueiro a encontrar mais algumas pessoas dispostas a mudar para sempre suas vidas ou acabar com elas.

A viagem foi tranquila assim como o dia. A única coisa que não passava era a vontade de uma cerveja. O sol brilhava muito forte, muito quente, muito perfeito para uma cerveja que DEVERIA estar sendo tomada mas não estava. Aquela cerveja, pensava eu, seria meu segundo arrependimento antes da morte?

Acabo de colocar a roupa e subo no avião. A cerveja não me sai da cabeça nem mesmo quando abrem a porta do avião e meu corpo é projetado para fora. Ouço o paraquedista gritando alguma coisa sem sentido ao mesmo tempo que ouço um ruído estranho de travas quebrando. O corpo voa solitário e sem controle e tudo que consigo vislumbrar é a cara de pavor do instrutor, ainda preso ao avião, olhando-me cair sem nenhum controle, sem nenhum aparato, sem nenhum paraquedas.

Cerveja filha da puta, penso eu, devia ter tomado aquela merda e desencanar desse salto idiota.

Já que a morte é inevitável, tento curtir o momento. Abro os braços e começo a rodar. Por vezes voo olhando o chão, por ora olho para cima e vejo meu instrutor vindo a toda velocidade, no formato de bala, tentando em alcançar e salvar minha vida já meio perdida. Tento evitar aquele último filme e tento manter a calma. 

Calma que vai embora quando viro mais uma vez o corpo em direção ao chão e a noção de que estou para morrer toma conta do meu corpo. Lá no topo do céu, cair não existe, já que o impacto está longe demais. Seria como segurar a respiração e achar que você vai morrer afogado nos 10 primeiros segundos mas, depois de um minuto, começa a bater o desespero. 

Fecho os olhos com medo da morte e lá vem o famoso filme da sua vida. 

Parece um menu de DVD onde vejo os títulos e resolvo escolher “arrependimentos”. Lá está ela, a cerveja, a qual eu já sei a história e vejo os desdobramentos caso tivesse bebido. Lá também está ela. Aquela mulher que deveria ter conhecido e não conheci. 

Fecho os olhos, aperto o play e vejo a história da minha naquela última semana, ou melhor, como seria a tal se eu tivesse conhecido aquela mulher.

Era uma quarta feira de manhã quente que deixei de lado a saúde e entrei logo no carro. Som ligado, vidros fechados e o ar condicionado funcionando ao ponto de fazer meu pequeno inverno particular. Penso nela pela segunda vez no dia e, naquele momento, abro mão de toda a minha realidade. Tenho o frio na espinha, tenho a vista turvada, aquele aperto no peito de quem sabe que o fim está próximo, mais próximo do que jamais esteve.

Quebro uma rua a esquerda causando a queda de um motoboy e o grito de uma velha e sigo sentido Zona Oeste com aquela ideia fixa na cabeça de que a loucura, nesse exato momento, é a coisa mais sã a ser feita. Sigo no ritmo frenético cortando o trânsito paulistano e enchendo minha carteira com todos os tipos de multas imagináveis. Quem se importa com multas estando morto, penso eu. Cruzo o largo da Batata e chego correndo na área já arborizada entre Pinheiros e Vila Madalena. Deixo o carro em faixa dupla e invado a agência de publicidade que aquela mulher trabalha.

-       Natasha!

-       Brian!?

-       Corre, não tenho muito tempo, nem para explicar, nem para viver, nem para... CALA A BOCA, SUA BICHA, DEIXA EU TERMINAR! Desculpa, vem, tem que ser agora.

Ela reúne os pertences em cima da mesa.

Pego sua mão e corremos para o carro. Abro a porta e antes de jogá-la para dentro aperto-lhe a cintura e temos nosso segundo antes do primeiro beijo. Os olhos ainda abertos e muito próximos, a respiração ofegante, as pontas dos narizes com um contato leve, quase inexistente. Aquele segundo que leva uma eternidade antes dos lábios se tocarem e as línguas enroscarem num baile onde dois dançarinos acabaram de se conhecer. E Dessa vez eles dançam bem, juntos, sempre perto.

Ela entra no carro eu faço a volta e olho para todos da agência ainda sem entender quem eu era e o que estava acontecendo. Foda-se todos. Não tenho tempo.
Quando paramos no primeiro boteco sujo que aparece, ela desce. Tomamos um conhaque com Guaraná por volta das 10h00 da manhã e quando ela aprecia o primeiro gole ela pergunta:

-       O que que tá acontecendo?

Eu abro a cerveja, aquela tal cerveja e sinto o prazer da cevada no café da manhã.

-       Sabe quando você tem um deja vu? Ou quando você tem uma outra chance pra acabar com um arrependimento da sua vida? É mais ou menos isso. Não sei de onde, mas tenho a certeza que meu fim está próximo. Então não podia deixar passar a chance de conhecer uma possível paixão, uma possível história que me faria sorrir no segundo final, ao invés de chorar arrependido

-       Você é louco, sabia?

-       Nunca fui são.

Nos beijamos mais uma vez e entramos no primeiro motel que encontramos na Marginal.

-       Quantas noite senhor?

-       Todas. Até sábado.

Sábado. O vento continua forte e eu abro os olhos mais uma vez. O chão está perto demais mas o arrependimento já não faz mais parte. Tomei aquela cerveja, fiz uma história com aquela mulher. Dou uma volta com o corpo e vejo o olhar desesperado do instrutor.

1500 pés
1300 pés
1000 pés

Ele abre o paraquedas para salvar a própria vida enquanto chora por me deixar morrer.

Faltam 5 segundos. Fecho os olhos e sinto o impacto com o chão. Tudo fica escuro e pacífico. Só sinto uma pressão no peito esquerdo.

Abro os olhos mais uma vez. É sábado de manhã e a cabeça daquela moça encontra-se sobre meu peito. A janela aberta deixa a manhã gelada. Deixo-a dormindo, abro a geladeira e tomo uma cerveja.

-       Baby, acorda.

-       Já tá na hora?

-       Já, você precisa me levar para o salto.

-       Dormiu bem?

-       Uhum, tive um sonho louco, mas dormi muito bem.

-       Tá, vem aqui me dar mais um beijo e a gente vai. Coloca aquela música pra eu acordar? Vamos comer pão de queijo antes de você ir?

-       Vamos sim. Vamos tudo.

Saímos de casa e eu tomo mais uma cerveja. Apenas por garantia. Ela me deixa e pergunta se eu volto. Balanço a cabeça com toda a certeza do mundo e a deixo partir com um beijo.